Mudanças climáticas intensificam impactos sobre os oceanos e preocupam comunidade científica
Os efeitos da emergência climática sobre os oceanos têm se tornado cada vez mais evidentes e despertado preocupação entre pesquisadores. Entre os impactos observados estão o aumento anormal da temperatura das águas, episódios de branqueamento em larga escala de corais, deslocamento de espécies de regiões polares, redução na reprodução de peixes e alterações no comportamento das correntes marítimas.


Esses e outros temas estão no centro das discussões do 3º Simpósio BBNJ (sigla, em inglês, para Biodiversidade Além da Jurisdição Nacional), realizado no Rio de Janeiro entre segunda-feira (10) e quarta-feira. O encontro reúne cientistas, representantes de governos, organismos internacionais e organizações da sociedade civil para debater a aplicação do Tratado do Alto-Mar, que entrou em vigor em janeiro deste ano.
O acordo, já ratificado por 86 países, entre eles o Brasil, estabelece bases para a regulamentação da proteção da biodiversidade em águas internacionais, além de tratar do compartilhamento de tecnologias marinhas, da criação de estruturas de governança e do acesso a recursos genéticos. As áreas além das jurisdições nacionais correspondem a cerca de dois terços de toda a extensão dos oceanos.
No documento, as mudanças climáticas aparecem de forma recorrente, com referências à necessidade de enfrentar a perda de biodiversidade e a degradação dos ecossistemas marinhos. O tratado também menciona problemas como aquecimento das águas, redução do oxigênio, poluição e acidificação, além de indicar a importância de identificar e proteger áreas consideradas vulneráveis.
Segundo Segen Farid Estefen, diretor-geral do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO), o acordo representa um avanço ao colocar o oceano no centro do debate climático. Ele lembra que, embora organismos das Nações Unidas, como o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), produzam relatórios importantes sobre o tema, o papel dos oceanos ainda recebe atenção limitada nessas análises.
Impactos sociais e econômicos
A professora de Oceanografia Física e Clima da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Regina Rodrigues, destacou durante o evento que os efeitos do aquecimento global também trazem consequências sociais significativas.
De acordo com a pesquisadora, o aumento do nível do mar representa uma ameaça direta para mais de um bilhão de pessoas que vivem em áreas costeiras de baixa altitude. Além disso, cerca de três bilhões de pessoas têm os frutos do mar como principal fonte de proteína, o que torna a queda na reprodução de peixes um fator de risco para a segurança alimentar.
A especialista também apontou possíveis deslocamentos populacionais e aumento das tensões geopolíticas em regiões altamente dependentes do oceano. Entre as áreas consideradas mais vulneráveis estão o Pacífico, a Baía de Bengala e partes da África Ocidental.
Para Regina Rodrigues, é fundamental fortalecer a articulação entre o Tratado do Alto-Mar e a Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC). Atualmente, os dois acordos internacionais seguem caminhos paralelos.
A pesquisadora defende ainda que os sistemas de governança sejam capazes de responder à escala e à velocidade das transformações ambientais. Segundo ela, a adaptação das políticas públicas será essencial diante da continuidade e da intensificação das mudanças climáticas.
Desafios para a pesca
Os efeitos do aquecimento global também têm provocado mudanças significativas na atividade pesqueira. O pesquisador brasileiro Juliano Palacios Abrantes, do Instituto para os Oceanos e Pescas da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, ressaltou que a gestão dos estoques de peixes em águas internacionais envolve grande complexidade.
Isso ocorre porque muitas espécies atravessam diferentes jurisdições marítimas, o que exige coordenação entre diversos países interessados na exploração desses recursos.
Segundo Abrantes, estudos recentes indicam que diversos estoques de peixes tropicais estão migrando das zonas econômicas exclusivas dos países em direção ao alto-mar. Esse deslocamento pode gerar disputas internacionais, como já ocorreu na Europa em conflitos envolvendo a pesca da cavala.
O pesquisador também alertou que parte desses estoques pode se deslocar para regiões onde não existem acordos de gestão ou proteção adequados. Nesse cenário, há risco de aumento das desigualdades, já que apenas um grupo restrito de países, geralmente mais ricos, possui estrutura para realizar pesca em alto-mar.
Imagem: Tânia Rêgo


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