Diocese de Santos apoia grupos de Economia Solidária

A caridade é importante, principalmente para quem está em situação de vulnerabilidade, mas os recursos da CF são destinados ao propósito da emancipação. A Diocese de Santos foi criada em 1924 e abrange os nove municípios da Baixada Santista.

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1/21/20265 min read

Segundo a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Campanha da Fraternidade (CF) começou a ser celebrada nacionalmente em 1964, como expressão da solidariedade da Igreja em favor da dignidade humana de acordo com três objetivos permanentes: a) despertar o espírito comunitário e cristão na busca do bem comum; b) educar para a vida em fraternidade; c) renovar a consciência da responsabilidade de todos pela ação evangelizadora, em vista de uma sociedade justa e solidária.

A cada ano a CF adota um tema candente na sociedade para reflexão e debate. Em 2026, por exemplo, é Fraternidade e Moradia. Nos três anos anteriores foram, respectivamente, Fraternidade e Ecologia Integral, Fraternidade e Amizade Social e Fraternidade e Fome. Como parte da Campanha, promove no Domingo de Ramos a Coleta Nacional da Solidariedade. O dinheiro arrecadado é destinado a promover ações sociocaritativas, sendo 60% destinado ao Fundo Diocesano de Solidariedade e 40% para o Fundo Nacional de Solidariedade. Os projetos contemplados em ambos os casos são selecionados por meio de regras estabelecidas em editais.

Nos últimos três anos a CF na Diocese de Santos contemplou 19 projetos de diferentes naturezas com um total de R$169.377,34. Foram financiados unidade demonstrativa de produção de bioinsumos, um espaço onde acontecerá formações e produção a ser destinado à agricultura familiar, indígenas, hortas domésticas e comunitárias; criação de peixes em tanques com recirculação de água; banheiros e ampliação de refeitório para comunidades indígenas objetivando o fortalecimento da segurança alimentar e do turismo de base comunitária; hortas comunitárias; aquisição de roupas de trabalho para jovens que se dedicam à coleta de óleo de cozinha para reciclagem; implantação de sistemas de coleta de água de chuva e de energia solar; criação de galinhas e peixes em viveiros escavados; aquisição de equipamentos de audiovisual e formação de indígenas para produção de vídeos e outras peças de comunicação; aquisição de equipamentos para uma cozinha sob a gestão de mulheres que preparam alimentos com a utilização de plantas da Mata Atlântica. No entanto, todos os projetos apoiados se fundamentam nos princípios da economia solidária: autogestão e cooperação. Assim, a gestão é coletiva, feita pelos integrantes dos grupos em reciprocidade, ou seja, com apoio mútuo.

Helenice Queiroz, coordenadora da CF na Diocese de Santos desde 1998, afirma que o diferencial desses últimos anos para se obter bons resultados foi a organização das comunidades em interação com o clero e outras instituições que prestam apoio técnico e organizacional aos projetos, como Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI), Fórum de Economia Solidária da Baixada Santista (FESBS), FUNAI, Comitê Interaldeias, Universidade Católica de Santos, Pastoral da Ecologia e associações comunitárias. Esta afirmação é corroborada por Hemerson Calgaro, extensionista da Regional Santos da CATI, que destaca a importância da construção de uma rede sociotécnica para viabilizar as iniciativas econômicas solidárias e enfatiza que os extensionistas atuam de forma permanente em parceria com a Diocese e demais organizações, mas sobretudo com as comunidades, na produção de alimentos, apoio ao turismo de base comunitária e fortalecimento do associativismo e cooperativismo.

A caridade é importante, principalmente para quem está em situação de vulnerabilidade, mas os recursos da CF são destinados ao propósito da emancipação, o que é possível pelo trabalho associado, coletivo, representado pela economia solidária, de acordo com Helenice.

O apoio a projetos de economia solidária promove vínculos sociais. Itamirim, liderança da aldeia indígena Tabaçu Reko Ypy de Peruíbe, afirma que o financiamento feito pela Diocese de Santos, com apoio da CATI e FESBS, para ampliação do refeitório da aldeia, representa mais que recursos, mas sobretudo confiança, parceria e compromisso com a vida comunitária, a dignidade e o bem viver.

Angélica Cruz da Horta Sustentável Verde Vida de Guarujá, Maria da Penha Pedrosa, integrante da Horta Sustentável Santa Cruz dos Navegantes, Francisca Eliene da Silva, da Horta Entre Amigos de São Vicente, André Nascimento da Horta Bons Frutos de Santos, Sergio Popygua da aldeia Ara Pyau de Mongaguá e Silvio Riju da aldeia Nhanderekoá de Itanhaém, são unânimes em reconhecer a importância do financiamento feito pela Diocese de Santos, via CF, e apoio técnico e organizacional que recebem.

André Ricardo de Souza, aponta em seu livro “Os Laços entre Igreja, Governo e Economia Solidária”, que o apoio da Igreja Católica às iniciativas econômicas solidárias tem referências históricas. Em 1956, o padre José María Arizmendiarrieta Madariaga teve atuação pioneira e determinante para a construção do maior complexo cooperativo do mundo em Mondragón, situado no País Basco. Cita, ainda, a atuação do Frei dominicano brasileiro João Baptista dos Santos que entre 1954, em parceria com o artista plástico Geraldo de Barros, fundou a cooperativa de trabalho UNILABOR, que se dedicava ao design e produção de móveis, chegando a ter mais de 100 trabalhadores e quatro lojas em São Paulo e Belo Horizonte. Registra que o Frei João Baptista reproduziu afirmação do Papa João XXIII que reforça a proposta do trabalho autogestionário como proposto pela economia solidária: “é uma exigência da própria natureza que aquele que produz com seu trabalho lhe seja dada parte da responsabilidade da gestão e possa aperfeiçoar-se a si mesmo em seu próprio trabalho”.

André Ricardo destaca, ainda, a atuação da Cáritas, que na década de 80 do século passado, com a operacionalização dos Projetos Alternativos Solidários, passou a incentivar iniciativas de economia solidária como ações estruturantes e não mais pontuais, indo além da simples assistência.

Dom Joaquim Mol, bispo da Diocese de Santos, em entrevista à TV Tribuna em novembro de 2025, esclarece que a Igreja faz parcerias, pois não tem a pretensão de resolver o problema de todas as pessoas e que o papel da Igreja não é aquele de uma ONG ou de uma associação, mas o de alimentar a fé e a esperança das pessoas, com a força dos ensinamentos de Jesus Cristo, e estimular iniciativas vindas de instituições e lugares diferentes em favor do povo em situação de pobreza.

Nesse sentido, a Diocese de Santos assumiu o papel de apoio à economia solidária na Baixada Santista inserida em uma rede de profissionais que atuam nas comunidades. Os resultados obtidos são muito bons e, mais uma vez, confirma que projetos construídos e operacionalizados em rede têm maiores chances de obterem resultados positivos.

Em 2026, Fraternidade e Moradia será uma oportunidade de formação e mobilização da sociedade para um tema de grande importância. Afinal, quem não tem moradia digna não tem paz. No texto-base da CF, mais uma vez a economia solidária é apontada como uma das soluções para a construção de casas por meio da autogestão.

*Newton Rodrigues – Integrante da Secretaria Executiva do Fórum de Economia Solidária da Baixada Santista Revista Fórum