Avanço do esgotamento do solo no território nacional coloca em risco a estabilidade hídrica e a produção de alimentos
Delegação brasileira debate na Mongólia estratégias de contenção da perda de capacidade produtiva das terras e diretrizes de preservação da Caatinga.
O desgaste severo das propriedades produtivas da terra já compromete as condições de vida de aproximadamente 39 milhões de pessoas no país, impactando pequenos produtores, comunidades tradicionais e povos originários. Caracterizada pela perda progressiva da retenção de água e da capacidade de suporte à vida no solo — processo decorrente de práticas agrícolas inadequadas, desmatamento e oscilações do clima —, a desertificação atinge atualmente cerca de 18% do território nacional sob a classificação de Áreas Suscetíveis à Desertificação (ASD). As implicações desse cenário transcendem as zonas rurais, refletindo-se na alta de temperaturas, no abastecimento de água e na oferta de alimentos para toda a população.
Entre os anos de 2000 e 2020, o espaço geográfico afetado pela degradação expandiu-se em 170 mil quilômetros quadrados, alcançando a marca total de 1,51 milhão de quilômetros quadrados. O fenômeno manifesta-se de forma predominante na Região Nordeste, mas estende suas ramificações ao norte dos estados de Minas Gerais e do Espírito Santo, ao trecho fluminense nordestino e ao noroeste sul-mato-grossense. Recente mapeamento oficial delimitou, inclusive, a presença da primeira área de clima árido do país, abrangendo uma extensão de 6 mil quilômetros quadrados compreendida entre Pernambuco e Bahia.
No contexto dos biomas nacionais, a Caatinga apresenta os índices mais acentuados de deterioração ambiental, registrando 11% de sua área sob condição crítica ou severa, além da eliminação prévia de 42,6% da cobertura vegetal original. A despeito dessa fragilidade, levantamentos científicos atestam a alta eficiência do bioma na retenção de carbono, sendo o solo o reservatório de 72% desse elemento no ecossistema local. Essa peculiaridade confere à vegetação do semiárido papel estratégico no equilíbrio do microclima e na mitigação dos gases causadores do efeito estufa.
Visando reverter esse quadro, o planejamento estatal recente estruturou o Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAB-Brasil 2025–2043) e o Programa Recaatingar. Tais mecanismos objetivam promover a recuperação socioprodutiva de 10 milhões de hectares degradados ao longo das próximas duas décadas, integrando o conhecimento técnico-agronômico às metodologias tradicionais de convivência com a seca, a exemplo de sistemas agroflorestais, barragens subterrâneas e reservatórios para armazenamento de água de chuva. Esses e outros arranjos institucionais integram as discussões técnicas da 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), realizada na Mongólia.
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