Atlas da Violência aponta que população negra segue como principal vítima de homicídios no Brasil

O Atlas da Violência 2026, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, aponta que a população negra continua sendo a principal vítima de homicídios no Brasil. O levantamento atribui o cenário às desigualdades históricas, ao racismo estrutural e aos altos índices de violência presentes no país.

Em 2024, foram contabilizados 32.820 homicídios de pessoas negras, número equivalente a 77% das mortes violentas registradas no período. A taxa corresponde a 27,3 assassinatos para cada 100 mil habitantes negros. Entre pessoas não negras, o total foi de 9.234 casos, com índice de 10,1 homicídios por 100 mil habitantes.

Segundo o estudo, uma pessoa negra possui atualmente 2,7 vezes mais chances de ser assassinada do que uma pessoa não negra. Em estados como Alagoas, a disparidade aparece de forma ainda mais acentuada.

Os dados históricos reunidos pelo relatório mostram que, entre 2014 e 2024, mais de 435 mil pessoas negras perderam a vida em decorrência de homicídios no país. No mesmo período, o número de vítimas não negras ficou em pouco mais de 132 mil. Apesar da redução geral nos índices de assassinato na última década, o recuo ocorreu de maneira desigual entre os grupos analisados.

O coordenador do estudo, Daniel Cerqueira, destacou que a violência também tem atingido de forma crescente outras populações socialmente vulneráveis.

Entre elas está a comunidade LGBTQIA+, que apresentou aumento nas notificações de violência em 2024. Foram mais de 10 mil registros envolvendo pessoas homossexuais e bissexuais, além de mais de 5,5 mil casos relacionados a pessoas transexuais e travestis. O Atlas ressalta que a ausência de registros específicos sobre motivação dos crimes dificulta a elaboração de políticas públicas mais efetivas.

O documento também reúne dados sobre violência contra pessoas com deficiência. Casos de violência sexual aparecem com frequência elevada entre pessoas com deficiência intelectual e transtornos mentais, principalmente entre mulheres. Entre crianças e adolescentes com deficiência, predominam situações de negligência, abuso sexual e agressões físicas.

A pesquisa ainda identifica agravamento da violência contra povos indígenas, especialmente em regiões marcadas por conflitos fundiários e disputas territoriais. No Amazonas, os homicídios de indígenas passaram de 36 para 73 casos entre 2023 e 2024. Já na Bahia, o crescimento registrado no período foi superior a 84%.

Em relação às mulheres indígenas, o levantamento aponta crescimento contínuo dos registros de violência ao longo da última década. Os casos de agressão física saltaram de 359 ocorrências em 2014 para 1.330 em 2024. Já as notificações de violência sexual passaram de 115 para 669 registros no mesmo intervalo.

Os dados sobre a população idosa também chamam atenção. O Atlas registrou aumento expressivo das notificações de violência interpessoal contra idosos no sistema de saúde entre 2014 e 2024. O estudo mostra ainda que idosos negros apresentam taxas de homicídio superiores às verificadas entre idosos não negros.

Outro destaque do relatório é o avanço das mortes por queda entre pessoas idosas, cenário associado ao envelhecimento da população brasileira. Desde o início dos anos 2000, os óbitos provocados por quedas cresceram de forma significativa tanto entre homens quanto entre mulheres.

Para os pesquisadores, os números evidenciam a necessidade de ampliar políticas públicas de proteção social e combate à violência direcionadas às populações mais vulneráveis do país.

Imagem: Tomaz Silva

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