Ativistas criticam uso de “blackface” em fantasias de carnaval

O debate sobre racismo no carnaval volta a ganhar força a partir de denúncias feitas por ativistas que questionam o uso de fantasias baseadas em estereótipos raciais. Entre elas, está a utilização de perucas e penteados que imitam cabelos crespos por foliões brancos, prática que vem sendo classificada como ofensiva e discriminatória.

A expressão “blackface de cabelo” foi criada pela página Samba Abstrato para problematizar esse tipo de caracterização, comum durante a festa. Segundo os integrantes do coletivo, o uso desses adereços repete a lógica de fantasias tradicionais que transformam identidades raciais em caricatura, como ocorre com personagens historicamente associados à ridicularização de pessoas negras e indígenas. A página atua há quase uma década trazendo esse debate para o período carnavalesco a partir da perspectiva de pessoas pretas.

Utilizando humor e ironia, o grupo denuncia mecanismos de embranquecimento presentes na maior festa popular do país. Um dos pontos recorrentes levantados é a preferência por mulheres brancas em papéis de destaque, mesmo quando não possuem ligação com o samba ou com as comunidades que sustentam essa manifestação cultural. Em alguns casos, essa escolha vem acompanhada do uso artificial de cabelos cacheados ou crespos, reforçando estereótipos.

O blackface, prática historicamente associada à pintura do rosto e ao uso de acessórios para imitar pessoas negras de forma pejorativa, surgiu nos Estados Unidos em espetáculos teatrais marcados por representações degradantes. A adaptação dessa lógica para o uso de cabelos crespos como fantasia, segundo os ativistas, reproduz a mesma violência simbólica ao transformar traços identitários em objeto de escárnio.

A crítica ganha ainda mais peso diante do histórico de discriminação enfrentado por pessoas negras em relação à estética afro. Por muitos anos, cabelos crespos foram associados a ideias de inadequação e inferioridade, resultando em exclusões e constrangimentos, inclusive no mercado de trabalho. Para a Samba Abstrato, o fato de essa estética ser adotada como fantasia apenas durante o carnaval evidencia a continuidade de uma lógica racista já conhecida.

Os integrantes do coletivo destacam a contradição entre a rejeição cotidiana da estética negra e sua apropriação momentânea como adereço festivo. Enquanto mulheres negras enfrentam barreiras e violências por usarem seus cabelos naturais, outras pessoas se apropriam desses elementos apenas de forma temporária, sem vivenciar as consequências sociais dessa escolha.

Negação da presença negra

Ao analisar o processo de embranquecimento do carnaval, pesquisadores apontam que a retirada do protagonismo negro dos espaços de visibilidade faz parte de um fenômeno mais amplo. Esse movimento é descrito como um apagamento social e cultural que atinge a população negra, não apenas na festa, mas em diversas esferas da vida pública.

Segundo estudiosos do tema, esse apagamento se expressa tanto na violência física quanto na exclusão simbólica, quando pessoas negras deixam de ocupar lugares de reconhecimento e destaque. A desvalorização da estética e da cultura negra dialoga com heranças do período pós-abolição, marcado pela negação da contribuição negra na formação do país.

Apesar de o carnaval contemporâneo ter sido moldado para atender a interesses comerciais e midiáticos, sua origem e sustentação estão profundamente ligadas à população negra. As escolas de samba, por exemplo, surgiram como espaços de organização coletiva e resistência, construídos por comunidades pretas e pardas em contextos de exclusão econômica e social.

Para especialistas, enfrentar esse cenário exige ações amplas e permanentes de combate ao racismo e à misoginia. Nesse contexto, campanhas institucionais voltadas à conscientização durante o carnaval são vistas como ferramentas importantes para coibir práticas discriminatórias e ampliar o debate público.

Carnaval sem racismo

Iniciativas educativas buscam alertar foliões sobre comportamentos ofensivos, como injúria racial, fantasias estereotipadas e outras formas de discriminação. A proposta é reforçar que expressões culturais e identidades negras não devem ser transformadas em objeto de chacota ou violência simbólica.

Representantes do poder público ressaltam que não há mais espaço para representações depreciativas da cultura negra, de religiões de matriz africana ou de mulheres negras. A defesa é por um carnaval que celebre a diversidade sem reproduzir práticas que reforcem desigualdades históricas.

Além da conscientização, as campanhas também incentivam a formalização de denúncias em casos de racismo. A orientação é que vítimas procurem os canais oficiais de atendimento e registrem ocorrência, como forma de garantir responsabilização e enfrentar a naturalização dessas violências.

Imagem: Tânia Rêgo

Publicidade

Publicidade